Lenda das Amendoeiras

Ilustração de Ana Raquel Nascimento, 5º Ano


"Há muito, muito tempo, ainda o Reino dos Algarves não era dos portugueses, pertencia a região a um poderoso senhor árabe, conhecido nos mais recôndidos pontos do mundo pela sua coragem e rudeza.
 O seu jugo estendia-se a tão longínquas paragens que dos locais mais estranhos lhe eram trazidas,como escravas, as mais belas mulheres das mais exóticas raças.

Certa vez, entre as escravas chegadas ao Algarve, uma chamou a sua atenção. Era uma menina loira, de faces muito brancas e olhos azuis, de um azul diferente e longínqui, azul quaze turquesa. Graciosa e doce, contrastava gritantemente com as mulheres morenas e quase agressivas que mais comummente ali chegavam.
E curioso de saber donde lhe vinha a diferença, perguntou:
- Como te chamas, escrava? E donde vens tu?
-Chamo-me Gilda, senhor, e venho lá do norte gelado onde a neve é, eternamente.
-Como vieste aqui parar?
-Ia de viagem com meu pai, um grande guerreiro do Norte, e vossos guerreiros mataram-no.
Sorriu e senhor ante a vitória que tal despojo lhe trazia. E, num gesto que nada mais era do que o prezer de possuir tal mulher, pôs à disposição sa escrava todo o seu reino.

Passou o tempo e a menina ía crescendo. Sem que Gilda desse por isso, o seu senhor passava horas a contemplá-la. E tanto e tão longamente olhou que, um dia, fez do objecto a coisa amada. Sendo senhor e dono de tudo o que o rodeava, o árabe decidiu desposar a escrava loira do Norte e fazer dela a primeira mulher entre todas as escrabas e concubinas do seu harém. E Gilda, a loira, a escrava, acatou as ordens do seu senhor, ainda que isso lhe custasse a última esperança do seu viver: voltar à terra longínqua onde nascera, ao mundo gelado da sua infância, aos velhos rituais do fogo ardendo, não do céu mas do solo.

Alegre e descuidado como um menino, o árabe começou os preparativos para o casamento, que queria inesquecível. Em breve começaram a chegar presentes e convidados de todas as partes da terra. E ao azul luminoso do céu juntou-se o colorido dos trajos exóticos dos mais distantes países. Vieram rájas da Índia vestindo túnicas brancas, toucados de turbantes multicolores, cobertos de jóias, sentados em palanques sobre o dorso de elefantes; vieram tuaregues do deserto, vestidos de lâ negra, cobertos de areia, sobre camelos pachorrentos; vieram mongóis e chineses, godos da Hispânia, germanos e normandos das terras frias do Norte, suevos louros com seus trajos de gala, príncipes negros da Etiópia, cavaleiros cristãos com elmos rebrilhantes, montados em cavalos de gualdrapas coloridas e bordadas.

O reino era pequeno, a multidão muita e todas as ruas eram uma orgia de cor e movimento.
No belíssimo salão de trono do árabe, todo ele colunas de mármore sustendo arcos em ferradura, centenas de bailarinas cobertas com ténues véus dançavam como serpentes ao som de melodias estonteantemente harmónicas, tocadas por menestréis em cítaras e alaúdes.

(...) No meio de toda aquela alegria, Gilda, porém, não estava feliz. No rosto um esquecido sorriso, nos olhos uma tristeza mais longínqua e azul.
(...) Vieram físicos de todo o reino, vieram mais físicos do mundo inteiro, e nenhum atinava com a causa daquela infinda melancolia. O senhor dos Algarves, sem saber mais que fazer, mandou anunciar pelo mundo que daria fortunas a quem lhe salvasse a mulher. E ninguém se apresentou para tentar, porque o fracasso equivaleria a perder a vida.
(...) Uma tarde, porém, vêm dizer-lhe que um velho chegado das bandas do Norte insistia em falar-lhe.
Recebeu o homem, apenas porque invocava para ser ouvido a cura da sua preferida, mas não acreditou que a cura fosse possível.
(...) E o velho aio entrou no quarto de Gilda. O que lá se passou ninguém o soube. Ficaram sós durante muitas horas e, por fim, o velho saíu e pediu que o levassem ao senhor do palácio.
(...) - Senhor, o mal de vossa esposa é a saudade!
- E o que devo fazer, velho? Mudar-me para o Norte?
-Não, senhor! Basta que planteis por esse Algarve fora amendoeiras, centenas de amendoeiras. No dia em que florescerem, todos os caminhos e montes parecerão cobertos de neve e ela curar-se-á.
(...) Em todo o Reino dos Algarves foram plantadas milhares de amendoeiras, enquanto Gilda permanecia entre coxins, definhando,morrendo pouco a pouco.

Um dia, porém, as amendoeiras floriram. Milhões de pequeníssimas flores brancas cobriam enormes extensões. O parque do palácio era um imenso campo branco de maravilha.
Gilda ignorava tudo aquilo e o árabe, depois de ter ele mesmo admirado o espectáculo, correu à sua câmara pedindo~lhe que fizesse um esforço e se aproximasse da janela com ele. Gilda, a custo, ergueu-se do divã e, amparando-se no ombro do seu senhor, chegou à janela e olhou o parque. Durante longos segundos ficou extática, sem conseguir sequer emitir um som. Depois murmurou, como quem fala em sonhos:
- É a neve! A neve da minha terra!!
O resto que se passou não conta a lenda, mas é fácil de adivinhar. Gilda curou-se, sem dúvida, e ainda hije, quando vem a Primavera, o Algarve cobre-se de minúsculas flores brancas, perpetuando o gesto de amor desesperado de um árabe de há longos séculos, do tempo de antes de os portugueses chegarem."

in "Lendas Portuguesas", recolha de textos Fernanda Frazão

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